DOR

Ela estava caída. Sua cabeça sobre o colo de seu homem, que chorava.
Ele sempre havia cuidado dela, comprava suas roupas, escolhia os móveis, chamava os médicos quando necessário, fez seu filho nela.

Sua mulher chamava sua amiga de Noli. Ele olhou-a da primeira vez e sentiu aflição. Sentiu aquele calafrio passear entre sua espinha. Ela não permaneceria muito tempo com eles, ele tinha certeza. Não era uma boa amizade.

Um dia, decidido a expulsar aquele espírito maligno de casa. Saiu mais cedo e foi para casa. Estranhou encontrar a porta entreaberta. Entrou, no fundo escutava seu filho chorar. Nada disse. Devagar caminhou até a cozinha onde sua mulher deveria estar. Cuidadosamente olhou pela fresta da porta e encontrou Noli em cima de sua mulher no chão, beijando-a, apalpando-a lascivamente. Surpreso não conseguiu esboçar um movimento, uma fala, um pensamento. Então Noli levantou.

Noli levantou e o marido então viu o rosto de sua mulher, inerte, morto. Uma faca jogada ao chão sujo de sangue ao lado, e um coração perfurado. Noli sorria carinhosamente olhando para o cadáver.

O marido não se conteve. Tomado de uma fúria animal. Avançou na mulher e esmurrou-a, chutou-a, bateu sua cabeça na parede várias, várias vezes. Mesmo a assassina estando já morta ele continuava a chutá-la . Bateu nela até se esgotar.

Então, voltando em si, correu em direção da esposa. Pegou sua cabeça e colocou em seu colo. Percebeu que ainda respirava. Falou com ela:

- Amor estou aqui ! - disse tentando sorrir.

- Onde está Noli ? - Ela perguntou com dificuldade.

- Matei a desgraçada amor - respondeu em prantos

A esposa olhou o marido e este percebeu, seria a última frase . Chorando falava "não, não" sussurrando. Chegando perto do ouvido dela se preparou para escutar o "eu te amo" mais doloroso de se escutar. Um "eu te amo" de despedida.

Ao invés disso ela disse :

- Nem minhas amizades você permite que eu escolha sozinha.

Ele gritou, pegou a faca no chão e enfiou-a em seu próprio estômago trazendo-a até o coração. Precisava de uma dor maior.

Caiu por cima de sua mulher. No fundo a criança continuava a chorar. Um vizinho gritava:

- Quem vai calar esta criança !



 Escrito por Nocte às 11h11
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01/10/2004 a 31/10/2004